Surfando no veganismo
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Surfando no veganismo

Surfando no veganismo

Como a internet se relaciona a esse novo estilo de vida?

Em estudo realizado pelo Ibope Inteligência em abril de 2018, 14% da população brasileira se declarava vegetariana: quase 30 milhões de pessoas. Em regiões metropolitanas, como São Paulo e Rio de Janeiro, o número sobe para 16%, o dobro de uma pesquisa realizada pelo Ibope em 2012, que apontou 8% de vegetarianos no país. Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira, de janeiro de 2012 a dezembro de 2017, o termo “vegano” foi buscado 14 vezes mais na internet.

Em 2018, o Instituto QualiBest entrevistou 4283 internautas brasileiros que acessam mídias sociais para descobrir sua relação com influenciadores digitais.  De acordo com o estudo, estas personalidades são a segunda fonte de informação para a tomada de decisão na compra de um produto, perdendo apenas para amigos e parentes.

A pesquisa mostrou também que 55% dos entrevistados confiam nos influenciadores que acompanham. Os alimentos e bebidas são o segundo produto, no caso das mulheres, e o terceiro, no caso dos homens, que mais impactam os consumidores.

Leonardo e Eduardo Santos são irmãos, veganos e administram o perfil Vegano Periférico no Instagram há um ano e cinco meses. “A ideia do perfil surgiu de forma muito natural. A gente tinha a ideia de tentar mostrar para as pessoas que as coisas são mais simples e mais fáceis do que a gente pensa”, afirma Leonardo, que é adepto da causa há dois anos. Eduardo participa do movimento há quatro.

Leonardo conta também que há muita interação dos seguidores e que fica, inclusive, difícil responder todos. “De modo geral é uma galera gente boa que interage bastante, dá muito feedback, agradece o trabalho, diz que se vê no que a gente faz e isso é muito importante”, afirma.

 

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Comida de verdade, que é possível pra maioria dos brasileiros, rango de quem tá na correria do dia a dia, sem precisar da morte e do sofrimento animal, sem prejudicar a saúde e colaborando com o meio ambiente, um rango sem mistério e muito econômico. Comida de gente simples, trabalhador brasileiro não tem tempo de ficar na cozinha fazendo um monte de coisa gourmetizada e inventando moda. Também somos do povão, que pega busão lotado quase todo dia, que trabalha e recebe quase um salário mínimo por mês, e não temos ninguém por nóis, então é bem possível. Só precisa mudar a visão pra enxergar o óbvio, é um trampo árduo, mas essencial. Somos dois moleques normais criados na quebrada que tá tentando de alguma forma mostrar que o veganismo pode ser popular, fácil, acessível e inclusivo. Aqui, estamos servindo e não nos sentimos especiais ou pessoas mais evoluídas. É isso, tamo aí no corre, remando contra a maré, na luta diária e na maior humildade.

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“Acho que o nosso perfil é real. Claro que tá dentro de uma plataforma de Instagram, dentro de um aplicativo, mas ele mostra um prato real, de pessoas reais, que trabalham no dia a dia fazendo o maior corre e tentam mostrar isso lá na página. Então eu acho que as pessoas sentem essa sinceridade”, explica Leonardo, justificando o sucesso da página, que, até o fechamento desta reportagem, tinha 170 mil seguidores.

Wesley Conrado, vegano há um ano, é um dos criadores do canal no YouTube e da página no Facebook Vegano Express. “A ideia surgiu há mais de dois anos. Minha sócia é formada em cinema, eu sou cozinheiro e a gente queria criar algum canal, algum empreendimento para as redes sociais. Um tempo depois ela começou a trabalhar em uma produtora, eles precisavam gerar conteúdo e, assim, a gente começou, mas logo esse projeto não deu certo e nós mesmos decidimos continuar.”, explica. Atualmente há também um perfil no Instagram, um site e um livro.

O cozinheiro afirma que a interação dos seguidores ajuda a divulgar a página. Além de vídeos, são postados memes, fotos, notícias e receitas de outros canais. “As pessoas sempre comentam, chamam um amigo pra ver aquele vídeo, aquela notícia, aquela foto. A galera interage muito e isso ajuda o canal a crescer”, conta. Conrado diz acreditar que o sucesso da página vem dos vídeos curtos com receitas fáceis.


O canal Fala Vegan surgiu em 2017, como uma iniciativa do dublador Ricardo Garcia, vegano há três anos. A ideia é dublar vídeos estrangeiros para facilitar o acesso a informações sobre veganismo no Brasil. “Eu comecei a trabalhar com a Mercy for Animals. Lembro, na época, de querer ajudar de algum jeito e eu pensei em ajudar com o que eu sabia fazer, eu trabalhava com isso. Aí eles começaram a me enviar vídeos que às vezes precisavam de uma narração feminina, então eu fui procurando no meu meio outras pessoas que fossem veganas. Fui distribuindo os vídeos e isso acabou virando um grupo”, relembra.

Sobre interações de seguidores, Garcia afirma que há muitas sugestões de vídeos, além de discussões entre a própria comunidade que assiste ao canal. “No começo eu ainda rebatia quando tinha alguma coisa mais agressiva ou quando era uma visão mais deturpada. Eu tentava dar a informação certa pra pessoa. Hoje em dia eu meio que só curto os comentários, mas acaba que quando surge algo mais agressivo ou alguma dúvida os seguidores mesmos respondem e virou uma comunidade própria. A gente recebe muitas mensagens legais ali, dizendo ‘ah, obrigado, virei vegano’ ou ‘virei vegetariano por causa de vocês’”.


O canal tem, atualmente, cerca de 100 mil assinantes. Segundo o dublador, os bons resultados têm a ver com o momento: a busca sobre o assunto estaria cada vez maior. “O veganismo vem explodindo, as pessoas querem saber mais sobre e o canal nasceu ao mesmo tempo que tudo isso está acontecendo. O nosso propósito é oferecer informação que estava disponível por aí em outras línguas para o pessoal daqui. Uma coisa dublada é mais democrática pra todo mundo. Tanto para pessoas mais velhas ou mais jovens, ou quem prefere dublado mesmo ou quem não tem paciência de ver um vídeo longo legendado”, diz.

 

Por quê divulgar o veganismo?

Leonardo Santos, do Vegano Periférico, diz se sentir grato por estar fazendo algo pelos animais. Para ele, é muito relevante falar sobre veganismo de forma fácil e acessível. “É uma causa que começou pela libertação animal e continua com foco nisso, mas abrange muita coisa. É muito interessante olhar como o veganismo pode ir muito além de um prato, como é um hábito revolucionário realmente. Mostrar isso pras pessoas de forma prática, de como elas podem trazer essa realidade e poder lutar também é muito f**a”.

Santos cita também a causa ambiental: cerca de 80% do desmatamento no Brasil é responsabilidade da pecuária, de acordo com dado de 2016 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). “A gente tem que dar um pouquinho de atenção pra isso e ver como o veganismo é importante. É muito além de um hype, de um estilo de vida, de Instagram e de ‘eu como um sorvetinho sem nada de origem animal, super caro, da Ben&Jerry’s e tô felizinho’. O veganismo é extremamente político e muito mais do que a gente imagina.”

 

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Colamos num grande evento vegano esse final de semana e nos sentimos deslocados. Ficamos indignados em como algumas pessoas estão propagando a causa. Primeiro que os preços dos produtos são caríssimos (puro comércio), muitos até esquecem do principal motivo de estarem na causa e por quem estão, mas sempre há exceções. Poderia ser um evento muito mais abrangente, mais popular e não só pra uma classe burguesa consumista, que mantém um estilo de vida regada a privilégios, despreocupadas com o principal objetivo do movimento. Fora o exibicionismo, uma rapaziada preocupada em se aparecer e atualizar status, uma prepotência e um sentimento de superioridade sem tamanho. Segundo que pra assistir as palestras (adquirir conhecimento) é necessário pagar um valor que não é pra todos, inviabilizando e selecionando quem vai ou não assistir e se beneficiar do conteúdo. Pobres e periféricos só estão ali pra servir, tem as exceções, mas são raras. Percebendo que a nossa rapaziada tava na limpeza, fizemos amizade com eles e, sentimos profundamente o quanto eles estão cansados da falta de noção de alguns frequentadores, é visível como eles são tratados como se não existissem, como se fossem máquinas de limpeza sem sentimentos. Por pertencermos a mesma classe que essa galera e ter passado por situações semelhantes é muito mais fácil pra gente perceber suas dificuldades e suas angústias. A quebrada só cola nesses rolê se for convidados por cortesia social ou pra trampar. Lembrando que os animais não tem culpa e não vamos deixar de falar por eles. #sejavegano #veganoperiferico #veganismo #veganismopopular #vegfest2018

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Para Garcia, do Fala Vegan, divulgar o veganismo é fazer com que as pessoas escolham o que consumir com consciência, contribuindo menos com a crueldade e com a exploração animal. “Não tem um fim pessoal. O veganismo não é em benefício da pessoa que pratica apesar de ter muitos benefícios, na questão de saúde, enfim. Conforme você divulga essa filosofia, você está fazendo ou pessoas aderirem a ela ou pelo menos pararem e refletirem sobre aquilo, talvez diminuindo o consumo, tendo um consumo mais consciente desses produtos. A nossa cultura é feita pra gente não enxergar de onde vem o que a gente tá consumindo”.

A opinião de Conrado, do Vegano Express, é parecida: sua missão seria espalhar conteúdo sobre uma questão grave. “O que está em jogo não é só a nossa saúde pessoal, mas algo muito maior, que é o meio ambiente, os outros animais, o respeito a todas as formas de vida. O canal nunca deu lucro, mas continua porque é uma coisa que eu faço pelo amor aos animais e, principalmente, pelo amor ao planeta”, afirma.

 

Foto destaque: Arquivo @veganoperiferico.

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