Quem te conhece, que te compre
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Quem te conhece, que te compre

Quem te conhece, que te compre

Conheça a situação atual dessa velha alternativa ao consumo de alimentos com agrotóxicos.

Se agora você pudesse mudar qualquer hábito alimentar, independente da dificuldade, qual seria?

A maioria pensará em iniciar uma dieta, outros em ter uma alimentação mais equilibrada, ou consumir menos algum ingrediente prejudicial ao organismo. Outra parcela, preocupada com os animais, dirá que pararia de comer carne.

Poucas pessoas vão pensar em substituir os alimentos que consomem por orgânicos. O curioso é que isso cumpriria a função de retirar ingredientes prejudiciais da dieta, como os agrotóxicos e outros resíduos químicos presentes em carnes. Sim, nem só de vegetais vive alguém com alimentação orgânica, mas também de carnes produzidas dessa maneira. Aliás, essa é uma opção para quem se preocupa com os animais, mas não consegue parar de consumir carne repentinamente.

No Brasil, quem regulamenta os orgânicos é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Para que as aves e bovinos recebam essa certificação, os produtores devem seguir uma série de procedimentos, como alimentar os animais com pastos livres de agrotóxicos e tratá-los com medicamentos fitoterápicos e homeopáticos, reduzindo o uso de antibióticos sintéticos. Tais parâmetros, assim como o fato dos animais serem criados em locais mais espaçosos e menos estressantes, garantem que os animais tenham uma melhor qualidade de vida.

Outra exigência para a classificação de orgânicos é que não sejam utilizados agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos e nem fogo no manejo das pastagens, para evitar a contaminação do solo e dos recursos hídricos. Todos esses fatores, além de proteger o meio ambiente, livram os alimentos de substâncias indesejadas. O consumo de alimentos com agroquímicos pode acarretar intoxicação aguda ou crônica, com efeitos que vão desde náusea e irritação nos olhos, até disfunções hormonais e câncer.

 

 

Com todas essas vantagens, fica a pergunta: o que falta para a população aderir aos orgânicos?

De acordo com o Conselho Brasileiro de Produção Orgânica e Sustentável (Organis), apenas 15% da população brasileira tem o hábito de consumir orgânicos. Essa mesma pesquisa aponta que, para uma parcela significativa da população (62%), o que falta para aumentar o consumo de orgânicos são preços acessíveis.

 

O preço mais elevado que o de um alimento não orgânico se deve ao custo para que a produção siga todas as etapas exigidas para receber a certificação do Mapa. O investimento em mão de obra também é maior do que numa plantação tradicional, uma vez que esse tipo de produção demanda mais trabalhadores por hectare.

O fato de ainda não ser possível produzir alimentos orgânicos em larga escala também afeta diretamente o preço, isso porque quanto maior a quantidade produzida, menor o custo unitário. Por outro lado, quanto menor a produção, maior o custo da unidade para o consumidor.

A mão de obra afeta diretamente o preço dos orgânicos. Se, por um lado, ela gera mais empregos, por outro, ela eleva o valor investido nos produtos. (Foto: Milton Santos)

 

Outro fator que afeta o preço dos orgânicos é a valorização no varejo. Para entender isso, imagine o seguinte: você vai até o mercado perto da sua residência comprar uma fruta orgânica.Ela custa R$ 3, você acha caro, mas paga. Num outro dia, você vai até uma feira de orgânicos comprar diretamente dos produtores. Você encontra o mesmo tipo de fruta, do mesmo tamanho e com a mesma certificação de orgânica, quase idêntica à do mercado. Tudo está igual, exceto o preço: enquanto naquela você pagou R$ 3, na feira você paga apenas R$ 1.

Comprar alimentos em feiras orgânicas sai três vezes mais barato que em mercados. (Foto: Milton Santos)

Essa situação poderia ser apenas imaginação, mas é mais real do que se pensa. O preço desses produtos chega a ser 300% maior nos mercados se comparado ao preço de aquisição diretamente com o produtor rural. E aí temos o segundo principal impeditivo detectado na pesquisa da Organis: a falta de lugares próximos para adquirir esses produtos foi apontada por 32% dos consumidores.

Voltando ao exemplo, certamente foi fácil lembrar de um mercado perto da sua residência, inclusive um que de fato exista. Difícil mesmo é imaginar a feira de orgânicos e pensar num local real e que você realmente já

foi. Certamente alguns leitores não terão essa dificuldade, mas grande parte se encaixa no percentual da população que mora longe desses locais.

 

Com essas desvantagens, a pergunta muda: dá para ter esperança nos orgânicos?

A resposta é simples: dá sim. Isso porque, embora esses alimentos ainda não tenham preços acessíveis e não sejam comercializados em mais locais, pesquisas recentes apontam que a produção tem conseguido não apenas sobreviver, mas também se expandir.

Segundo levantamento do Mapa, em menos de uma década o número de unidades de produção orgânica triplicou no Brasil. Em 2010 o país contava com 5,4 mil unidades registradas, enquanto em 2018 foram contabilizadas 22 mil. O número de produtores registrados também teve uma alta significativa, indo de 5,9 mil, em 2012, para 17,7 mil em março de 2019, registrando um crescimento de 200% no período.

Em 2018, o mercado brasileiro de orgânicos faturou R$ 4 bilhões, 20% a mais do que o registrado em 2017. E, conforme aponta o Organis, o Brasil é líder desse mercado da América Latina.

O cenário da agricultura também é animador internacionalmente. De acordo com a Federação Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica (Ifoam), esse tipo de produção cresceu em todos os continentes atingindo a área recorde de 70 milhões de hectares.

Mesmo enfrentando condições adversas, a agricultura orgânica tem conseguido ocupar mais espaço nas plantações. (Foto: Milton Santos)

 

Já a Organic Trade Association (OTA) detectou que o consumo de alimentos orgânicos é maior entre a geração Milênio, que vai de 18 a 35 anos. A associação também aponta que 25% dos consumidores são novos pais, que adotam esses hábitos preocupados com a saúde dos filhos. A OTA estima que, em 10 anos, 80% da geração Milênio já terá filhos, o que, seguindo a atual lógica, impulsionará ainda mais o mercado.

 

Com esses prós e contras, a pergunta que resta é: o que esperar dos orgânicos?

Deles? Nada. Dos produtores e consumidores – e você está nessa categoria – sim, é possível esperar atitudes concretas, que podem melhorar o panorama dos orgânicos, tornando esses produtos mais baratos e populares.

Optar por orgânicos pode ser a chave para mudar, aos poucos, o cenário adverso que esses produtos enfrentam. (Foto: Milton Santos)

Aos produtores, fica o dever de buscar meios para baratear a produção, para assim diminuir seu preço, e tornar esses alimentos mais presentes no cotidiano da sociedade. Com esforços nesse sentido, os dois principais impeditivos por parte da população seriam minimizados.

Já aos consumidores, resta pesar os benefícios dos orgânicos para a alimentação e para o meio ambiente, conscientizando outras pessoas sobre a existência e as vantagens desses alimentos. Para uma mudança de cenário, o consumidor deve também cobrar a comercialização destes produtos nas feiras e mercados que frequenta, e, principalmente, optar por eles sempre que possível.

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