Fome
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Fome

Fome

Até onde nosso corpo suporta a falta de comida?

A duração de vinte e quatro horas é relativa. Um dia todo se divertindo com a família é ligeiro e corre como se fossem minutos. Um dia todo esperando o resultado de um exame importante parece um ano. Um dia tranquilo de atividades pode ser só um dia mesmo. Mas um grande teste para saber quanto duram vinte e quatro horas é passá-las sem comer.

Na primeira hora tudo segue bem. Pelas quatro ou cinco próximas, também. A partir da sexta hora (fatídico horário do almoço) as coisas começam a se complicar, o cheiro do almoço da vizinha parece até mais gostoso que o habitual.

Lá pro meio da tarde, a coisa já está feia e a televisão já não distrai mais. Um livro ajuda, mas no meio do caminho o sono vence. Acorda lá pras sete da noite, já são onze horas de jejum. Abre a geladeira, encara a comida e acaba bebendo uma garrafa de água. Pronto. Agora estou satisfeita. Pela próxima meia hora.

(Foto: StockSnap. Arte: Mariana Oliveira)

De volta pro sofá. Os programas não colaboram com a experiência, é um tal de viagem gastronômica de um lado e reality show de chef do outro. Desliga a TV. Liga o computador, navega pelas redes sociais evitando conteúdos saborosos. Já se passaram catorze horas.

Vamos deitar. De novo. O estômago já está roncando há tantas horas que nem se escuta mais. Talvez dormir ajude, assim dá pra esquecer a fome. Mas antes mais um copo de água.

 

No meio da noite um alienígena parece viver dentro da barriga. Acordar assim, definitivamente, não é a forma mais agradável. E nem é de manhã ainda, mas já somamos dezoito horas. A dor de cabeça chegou em algum momento e agora só piora. Volta a dormir e esquece o resto do frango assado que tinha sobrado do almoço do domingo, ele ainda vai estar lá amanhã cedo.

O despertador tocou! Finalmente, sete da manhã, vinte e quatro horas. Café da manhã! Comida! Recomendações médicas: “após o jejum iniciar a alimentação por comidas leves”. Ok… Prepara um chá, umas torradas secas… Não é a melhor coisa do mundo, mas é comida.

*CREC!*

“Meu Deus! Como nunca dei nada por essa bolachinha?”

São como anjinhos dançando dentro da boca, chega a pensar que trocaria até mesmo o frango assado por mais algumas daquelas cream crackers. Deita no sofá e absorve o momento, como é bom comer!

(Foto: Karolina Grabowska. Arte: Mariana Oliveira)

 

Passam-se as próximas vinte e quatro horas, com elas seus pães, o arroz, a carne, os purês, os legumes e todas as outras comidas. O dia vai rápido, não se contam as horas, não se mede o tédio e não se apressa o tempo, vai com prazer. E com comida.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2016 cerca de 815 milhões de pessoas passavam fome no mundo e em 2017 esse número cresceu para 821 milhões. Em 2017, uma em cada nove pessoas foram vítimas da fome em todo o planeta. “Estamos parados na luta contra a fome há quatro anos”, afirma Julio Berdegué, representante da FAO para a América Latina e o Caribe. O que nós estamos fazendo para acabar com isso? Um dia ser comer para um exame médico é um acontecimento, mas para uma pessoa que não tem o que comer, essa é a vida.

 

Imagem destaque: Karrie Zhu. Arte: Mariana Oliveira.

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