Um problema que persiste no solo
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Um problema que persiste no solo

Um problema que persiste no solo

Entenda o caminho dele até sua mesa, seus efeitos na saúde e como evitá-lo


Os dois agrotóxicos com maior concentração no solo brasileiro são o inseticida DDT (diclorodifeniltricloretano) e o fungicida HCH (hexaclorociclohexano), ambos altamente tóxicos e, atualmente, proibidos no Brasil. Essa foi uma das conclusões da pesquisa de mestrado da bióloga Caroline Lopes Feijo Fernandes, orientada por Flavio Rodrigues, com quem a SerVida conversou mais sobre o assunto.

O inseticida DDT, proibido desde 1998, e o fungicida HCH, banido para qualquer fim em 2007, pertencem aos organoclorados. Uma das características dessa classe química é a existência de átomos de cloro na sua estrutura, moléculas tóxicas e difíceis de degradar no ambiente. Outra característica é a persistência de seus resíduos no solo entre 15 e 240 anos.

Estamos sofrendo as consequências daquilo que foi usado no passado.

 

“Hoje sabemos que estes compostos demoram décadas para se decompor no ambiente. Ou seja, estamos sofrendo as consequências daquilo que foi usado no passado”, conta Rodrigues. Outro apontamento de seu estudo é que, dos 55 compostos detectados no solo, apenas 22% possuem limites máximos de uso na resolução ambiental de proteção do solo. Já em outros casos que são regulamentados, os limites máximos permitidos são mil vezes maiores do que a regulamentação de países como o Canadá permite.

 

 

Por falar nas leis internacionais, vale lembrar alguns dados que mostram o Brasil indo na contramão delas: aproximadamente 50% dos agrotóxicos usados no Brasil estão proibidos na Europa, EUA, Canadá e Austrália. Outro fato é que em lavouras como arroz, feijão e milho, um dos produtos mais utilizados é o Tiram, fungicida autorizado no Brasil, mas proibido no mercado americano por sua relação com mutações genéticas, problemas endócrinos e reprodutivos.

Enquanto a União Europeia busca diminuir o uso de agrotóxicos na agricultura, em 2017, as plantações brasileiras receberam mais de 60 mil toneladas destes químicos. O Paraquate,  proibido em território europeu desde julho de 2007 devido ao seu grau de toxicidade, segue como oitavo agrotóxico mais vendido no Brasil. O Lactofen é outro produto proibido na União Europeia por ser considerado cancerígeno, mas que continua sendo usado na cultura da soja brasileira.

Somente de janeiro até 4 de março de 2019, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) liberou 74 produtos relacionados a agrotóxicos. Desse total, 58 já foram formalizados através de publicação no Diário Oficial da União e 21 são classificados como extremamente tóxicos. Com isso, o país passou a ter mais de 2.100 produtos desse tipo liberados para comercialização.

De acordo com o Ministério da Agricultura, durante o ano de 2018 o governo de Michel Temer (MDB) aprovou o registro de 450 produtos com agrotóxicos. Foi o ano com maior número de registros desses químicos na história do país, e contrasta com anos anteriores do próprio governo Temer, como 2017, que teve 405 registros, e 2016, com 277.

Nesse ponto você pode se perguntar qual a importância dessa quantidade de registros, ou da legislação do Brasil em relação às de outros países, ou ainda sobre que diferença faz a persistência de um agrotóxico no solo, mencionada no início desta reportagem. O ponto convergente disso tudo é exatamente você, ou, melhor dizendo, a sua saúde.

 

Impactos no corpo

Muitas pesquisas apontam a relação de certos agrotóxicos com doenças, como câncer, problemas reprodutivos e endócrinos, mas é possível que existam efeitos imediatos em quem os usa ou aplica. Essa é a chamada intoxicação aguda, que pode causar inúmeros problemas de saúde, inclusive levar o indivíduo a óbito.

Mesmo com casos que comprovam a relação desses produtos com o câncer, alguns ainda são utilizados. (Foto: Gustavo Ribeiro)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que ocorram 3 milhões de casos de envenenamento e cerca de 220 mil mortes por agrotóxicos por ano. “Por outro lado, sabemos que os problemas de saúde mais sérios são vistos entre agricultores que aplicam os venenos e pessoas que se intoxicam acidentalmente ou propositadamente”, relata Flavio Rodrigues.

De acordo com o pesquisador, só no ano de 2017 foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, quase 13 mil casos de intoxicação por agrotóxicos. Entretanto, a maior parte destas notificações está relacionada a circunstâncias acidentais ou tentativas de suicídio, enquanto a intoxicação em quem aplica o produto foi registrada em 2,5 mil casos e a ingestão de alimento contaminado teve 57 ocorrências.

Os moradores e trabalhadores de áreas rurais e suas famílias são as principais vítimas da intoxicação aguda. Em 2006, uma nuvem de agrotóxicos causada pela pulverização em plantações de soja atingiu a cidade de Lucas do Rio Verde (MT), provocando intoxicação aguda em crianças e idosos e a contaminação da água, do ar e do leite materno.

Entre os sintomas da intoxicação aguda estão dor de cabeça, tontura, vômitos, diarreia, desmaios, dores abdominais, irritação nos olhos, sangramento nasal e convulsões. Rodrigues ressalta que, caso o indivíduo suspeite de intoxicação por agrotóxicos, deve procurar com urgência o atendimento médico na Unidade Básica de Saúde mais próxima.

De acordo com o pesquisador, após o contato com substâncias químicas estranhas, chamadas comumente de xenobióticos, o corpo usa mecanismos sistêmicos para tornar a substância menos tóxica e eliminá-la mais rapidamente. As células do sistema imune também atuam para minimizar os prejuízos causados por substâncias como os agrotóxicos. “No entanto, antes de ser eliminada completamente, a substância química pode interagir com células e tecidos do corpo causando prejuízos”, conta.

O consumo de alimentos contaminados por agrotóxicos, em tese, traz menos problemas que a intoxicação aguda. Entretanto, esse segundo tipo, chamada de crônica, é “invisível” e não-controlada. “São doses baixas, porém contínuas e de uma mistura incontável de agrotóxicos utilizados nas diferentes culturas”, relata Rodrigues.

O efeito cumulativo, como é chamado o acúmulo de resíduos de agrotóxicos no organismo ao longo do tempo, é considerado pela OMS o responsável pelo aparecimento de diversas doenças no indivíduo. Os problemas causados incluem alterações metabólicas e hormonais, associação com partos prematuros, maior risco de aborto e aumento do risco de alguns tipos de cânceres.

Outros efeitos são mutações genéticas, doença de Parkinson, problemas respiratórios e tumores, como leucemia, linfoma não Hodgkin, câncer de rim, pulmão, tumores cerebrais e complicações reprodutivas. Um estudo com 189 pessoas nos EUA, mostrou que a dieta com alimentos com elevadas concentrações de agrotóxicos piorou a qualidade do sêmen em comparação com homens que tinham uma dieta com níveis baixos de agrotóxicos.

 

Afinal, por que eles são utilizados?

Na teoria, esses produtos têm o papel de melhorar a produção de determinado alimento, e podem ser classificados de acordo com as seguintes funções:

Entretanto, na prática, surge um cenário mais intrincado do que o simples cumprimento dessas funções.

Mesmo não sendo o país com a maior produção agrícola, desde 2008 o Brasil ocupa o posto de país que mais consome agrotóxicos. Com todos os efeitos sobre o corpo de quem aplica ou consome esses resíduos indiretamente, você pode se perguntar: por que o Brasil usa tanto esses produtos?

Uma das possíveis respostas vem do mestre em Agronomia pela Universidade Estadual de Maringá, Tarcisio Teixeira: “Temos um complexo quadro que envolve lideranças políticas, grandes agricultores que dependem da agricultura convencional, o mercado mundial de commodities, o sistema financeiro que apoia a agricultura convencional e um conglomerado de mega-empresas mundiais que controlam a produção e comercialização dos agrotóxicos”.

Consideremos então o agrotóxico mais utilizado no Brasil, o glifosato. De acordo com Teixeira, esse herbicida tem a função de controlar plantas invasoras nas produções de soja. O Brasil é o segundo maior produtor mundial do grão, fato que, em tese, justificaria seu uso. Entretanto, a manutenção do produto no mercado foi alvo de debates nos últimos anos.

De um lado da questão estão os grupos políticos e empresas fabricantes dos produtos. Um dos pronunciamentos sobre a proibição do herbicida veio de Blairo Maggi, quando este era Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do governo Temer: “Fica muito difícil levar adiante já que o Brasil planta 95% da sua área de soja e milho com plantio direto e o glifosato é a base desse processo. Não tê-lo significa não conseguir colher”.

Do outro lado temos pesquisas e casos concretos, como o de um trabalhador da Califórnia que sofreu de câncer causado pela exposição ao glifosato e recebeu uma indenização de 80 milhões de dólares da Bayer, empresa que produz o herbicida. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), em estudo publicado em 2015 na revista científica The Lancet, apontou o glifosato, além dos inseticidas malationa e diazinona, como prováveis agentes carcinogênicos.

Os trabalhadores rurais são os mais afetados pelos agroquímicos. (Foto: Gustavo Ribeiro)

O fato é que o herbicida passou por recentes reavaliações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que publicou um parecer favorável à manutenção do produto no mercado. Segundo o laudo, “a principal conclusão da reavaliação é que o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas”.

As medidas propostas por ela estão voltadas para o manejo do produto durante sua aplicação e dispersão. O comunicado diz ainda que “o produto não foi classificado como mutagênico, carcinogênico, tóxico para a reprodução, teratogênico (que causa malformação fetal)”. Com esse texto, a agência abriu, no dia 26 de fevereiro, uma consulta pública para que a sociedade se manifeste sobre o assunto. Ela ficará disponível por 90 dias e, após esse prazo, a Anvisa tomará a decisão final sobre a substância.

 

Fiscalização

No Brasil, a Anvisa é a responsável pela avaliação do nível de toxicidade dos produtos usados, que vai da classe I, sendo os extremamente tóxicos, até a classe IV, pouco tóxicos. “Entre os agrotóxicos mais comercializados atualmente, o 2,4-D está enquadrado na classe I e é liberado para uso em diferentes culturas, tais como arroz, milho, trigo, cana de açúcar e soja”, conta Flavio Rodrigues.

Durante o desenvolvimento dos agrotóxicos são realizados testes de efeitos ecológicos, que avaliam quais os efeitos que eles podem causar nos ecossistemas. Também são feitos testes toxicológicos, que, conforme descreve Tarcisio Teixeira, são divididos em cinco tipos.

 Outra responsabilidade da agência é estabelecer a Ingestão Diária Aceitável (IDA), um parâmetro de segurança que define a quantidade máxima de agrotóxico que uma pessoa pode ingerir por dia, durante toda a vida, de modo a não ter danos em sua saúde. “As agências reguladoras determinam os níveis máximos seguros nos alimentos, mas quem dá a garantia do alimento que comemos todos os dias, no prato dos mais de 200 milhões de brasileiros?”, questiona Flavio. 

Essa indagação faz sentido ao analisarmos a pesquisa da Jacqueline Gerage Marques, mestra em ciência e tecnologia de alimentos. Ela analisou 743 itens alimentícios, entre eles, arroz, feijão, batata, café, abóbora e cebola e cruzou dados sobre os hábitos alimentares de 33,6  mil brasileiros.

Com seu estudo ela constatou que 69 compostos excediam o valor de ingestão diária aceitável, podendo prejudicar a saúde de seus consumidores.  

Entre os problemas que apontam a fragilidade na fiscalização, prejudicam a população e o meio ambiente está a persistência dos organoclorados no solo, de acordo com a pesquisa de Caroline Feijó, orientada por Rodrigues. Outra fragilidade é o contrabando de agrotóxicos proibidos no Brasil, como o Metamidofós e Quinoxifeno, banidos do mercado devido aos seus altos níveis de toxicidade, mas contrabandeados para uso por parte dos agricultores.

O Brasil também enfrenta o problema de produtos que são processados no país por pequenas empresas que não possuem a estrutura tecnológica das desenvolvedoras do produto. “Com isto, podemos ter produtos legalizados, mas com dezenas a centenas de vezes a toxicidade do produto original”, argumenta o agrônomo.

De acordo com Teixeira, há casos em que os produtos consumidos in natura, como saladas e frutas, recebem doses excessivas de agrotóxicos que são legais no Brasil, porém não são autorizados para a cultura em que são aplicados. A responsabilidade de fiscalização nesses casos é do programa Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Anvisa, que trabalha identificando irregularidades na aplicação em alimentos para consumo in natura.

 

Alternativas no prato

Se você ficou preocupado com os alimentos que consome anote essas dicas para diminuir a quantidade de agrotóxicos no seu cotidiano.

 

 

“Se pensarmos que agrotóxicos são substâncias químicas com maior ou menor grau de toxicidade, evitar o contato com elas obviamente melhora as condições de saúde”, aponta Flavio Rodrigues. Uma dica do pesquisador é a substituição dos alimentos convencionais por alimentos de origem reconhecidamente orgânica. Em 2018 foi realizada, na França, uma pesquisa com quase 70 mil participantes, que mostrou redução de 25% no risco de diferentes tipos de cânceres entre consumidores de dieta orgânica.

Outra estratégia é fazer sua própria mini horta em casa, no condomínio ou hortas comunitárias. Desta forma, é assegurada uma origem controlada dos alimentos. “À primeira vista parece um retrocesso, mas pelo contrário, vários países europeus estão utilizando esta estratégia ecologicamente sustentável”, indica Flavio.

Quem também se pronunciou sobre alternativas ao consumo de alimentos com agrotóxicos foi a Anvisa, que em nota diz que “o consumidor pode optar por alimentos rotulados com a identificação do produtor, o que contribui para o comprometimento dos produtores em relação à qualidade de seus produtos”.

 

Alternativas na ciência

Conforme relata Teixeira, existem pesquisadores que buscam alternativas ao uso dos agrotóxicos. “Podemos dizer que há duas linhas de pesquisa e trabalho para diminuir os efeitos dos agrotóxicos na saúde humana e na natureza” diz. A primeira linha se refere aos cientistas que buscam alcançar um uso seguro dos agrotóxicos, seguindo as normas de aplicação recomendadas pelos fabricantes. Para esses pesquisadores, o que falta é treinamento dos aplicadores para resolver ou amenizar e solucionar o problema.

A segunda linha é constituída por profissionais que trabalham com a hipótese de que o problema só será resolvido por meio da eliminação do uso dos agrotóxicos. Dentro desse grupo, há quem busque uma transformação imediata e defenda o abandono do uso de agrotóxicos de forma radical. Há também quem considere que uma mudança radical da matriz produtiva poderia promover uma crise econômica no setor. Esses pesquisadores buscam uma eliminação gradual do uso desses produtos.

Essa transformação na produção é denominada transição agroecológica e, segundo Tarcisio Teixeira, “há muitos estudos que estão sendo realizados por diversos pesquisadores de como poderia ocorrer a transição em um âmbito nacional”. Na visão dos que defendem a agroecologia, o controle dos problemas é tratado a partir da consideração do agroecossistema como um todo.

Esses pesquisadores trabalham com estratégias como adubação verde, que é plantar leguminosas para recuperar o solo, e adubação com compostagem e rotação de culturas, que evita a proliferação de insetos e doenças que atacam uma cultura em específico. O policultivo também é usado para evitar a propagação das pragas, mais comuns nos sistema de monocultura.

De acordo com Teixeira, o controle através de produtos químicos também é possível em um sistema agroecológico: “todavia, são substâncias aprovadas para cultura orgânica e isentas de princípios tóxicos ao homem e à natureza”.

Outra estratégia é o controle biológico, que consiste em desenvolver e aplicar predadores dos insetos que atuam como pragas nas lavouras. “Para as culturas intensivas, de maior diversidade e para pequenas áreas, este sistema já tem inúmeras provas de sucesso nutricional, de produtividade e financeiro”, relata o agrônomo.

Quem também fala sobre a Agroecologia é Flavio Rodrigues: “olhando para nossa Constituição temos a garantia à saúde e ao ambiente equilibrado para que todos possam ter um desenvolvimento saudável. Estes direitos estão vulnerados com esta matriz produtiva e também estamos comprometendo o futuro das novas gerações”.

“A Agroecologia deve ter posição de destaque nas políticas públicas”, afirma o pesquisador. Para ele, a partir desse destaque e de medidas estruturantes que visam realizar a transição agroecológica, pode ser possível reduzir o uso de agrotóxicos, preservar os milhões de empregos e a renda que propicia o agronegócio no Brasil.

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