Alimentação e afeto na infância
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Alimentação e afeto na infância

Alimentação e afeto na infância

Basta dizer “coma isso” ou “coma aquilo” para a criança entender que aquilo é bom para ela?


“O que mais leio é: ‘como fazer a introdução alimentar do meu filho?” e “meu filho comia de tudo até pouco tempo atrás e agora não aceita mais nada. Preciso de ajuda!’”. Quem diz isso é Glazielly Alves, mãe da Nina e dona do perfil @menudanina no Instagram, onde mostra o dia a dia alimentar de sua filha e recebe inúmeras dúvidas de pais preocupados.

Apesar dos questionamentos sobre o tema, Alves conta que ainda não teve problemas com a introdução alimentar da filha. “Desde o início ela se interessou e gostou muito de comer! Alimentação sempre foi nossa prioridade”, relata. Ela lembra que sempre buscou ser sincera e mostrar o que Nina comeria antes das refeições, além de consumir os mesmos alimentos que a pequena.

 

 

Para Juliana Ferrari, Mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP/USP),  o hábito de se alimentar do mesmo cardápio dá segurança à criança, o que é fundamental para que ela aceite novos alimentos em sua rotina. “É preciso realmente viver aquilo que se pretende que os filhos vivam. Portanto, não exija dos seus filhos uma alimentação que você não esteja disposto a ter”, aconselha.

Não se trata apenas de estar ao lado, de dizer para a criança comer o que está no prato, mas de tornar o momento da alimentação prazeroso, de transformá-lo em uma oportunidade de descobrir sabores e texturas juntos. Segundo a mestre em Psicologia, sempre que possível, os pais devem se submeter a novas experiências com os filhos, convidando as crianças a experimentar, juntos, novos alimentos.

A criança valoriza o sentimento de compartilhar descobertas, e isso pode se tornar uma forma potente de criar um vínculo saudável e incentivar uma cultura de abertura a novas experiências alimentares. Isso porque, como conta Ferrari, “alimentação e afetividade são duas dimensões completamente conectadas da constituição psíquica humana”.

Estar junto e comer os mesmos alimentos fortalece a conexão e a cultura de experimentar novos sabores. (Foto: Gustavo Ribeiro)

Por outro lado, o que pode prejudicar esse relacionamento de confiança entre filhos e pais é a cobrança excessiva sobre os pequenos, que se torna um fator estressante. Segundo Ferrari, os adultos, “preocupados com a perenidade desses hábitos, tendem a construir padrões irreais do que significa ser saudável”.

Isso pode acabar gerando uma pressão desnecessária. Primeiramente porque é mais saudável estabelecer a conexão e a cultura de experimentar novos alimentos, ditas anteriormente. “Uma família que se mantém aberta às novas experiências tende a flexibilizar o padrão de alimentação,  

mostrando aos filhos que sempre há algo que podemos experimentar. Dessa forma, não há idade para incluir um novo hábito” defende a psicóloga.

O outro motivo para deixar essa cobrança de lado é que a infância é uma fase importante da aquisição de hábitos alimentares, mas não é a única. Os costumes adquiridos podem perdurar por toda a vida ou serem resinificados em outras etapas de desenvolvimento, como na adolescência e a entrada na vida adulta.

Desse modo, os hábitos alimentares podem ser aprendidos, desaprendidos e aprimorados. Não é necessário colocar toda a ansiedade para a construção do padrão alimentar já na infância. Como diz Ferrari: “toda mudança de rotina pode ser uma oportunidade para inserir novos hábitos e corrigir rotas problemáticas da alimentação”.

Os pais, ao terem essa consciência, podem estabelecer padrões possíveis e humanos de relacionamento, tanto com a criança, quanto com os hábitos alimentares. A psicóloga defende que uma educação alimentar adequada é uma ferramenta poderosa para entrar em contato com o mundo de maneira afetiva e transformadora, tendo em vista que a alimentação e o afeto são duas dimensões completamente conectadas.

Para Glazielly Alves, a mãe da Nina, lá do início da reportagem, sua presença ao lado da filha, comendo os mesmos alimentos e conversando sobre eles, fortalece a conexão entre elas. “Cozinhar é uma das melhores formas de demonstrar cuidado e amor a alguém! Eu e Nina conversamos sobre comida, planejamos juntas as refeições seguintes, fazemos surpresa e brincamos sobre o assunto”, conta.

“Somos espelhos para os nossos filhos. Sempre tive isso em mente e faço do momento das refeições um momento de diversão e expectativas!”, diz Glazielly. E conclui, lembrando do acompanhamento que recebeu da própria mãe em sua infância: “comida é lugar de memória, de amor, de contato”.

 

E na escola?

 

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Levanta a mão quem tb faz parte do clube da marmita?! Hoje tem festinha e a marmitinha já está preparada! Embora Nina tenha feito 2 anos em setembro, não acho que chegou o momento dela comer açúcar e outras coisas justamente pq ela NUNCA mostrou interesse! Ao meu ver, uma criança de 2 anos ainda não tem maturidade e nem voz de decisão pra saber o que precisa ou não comer, então vou segurar o qnto eu puder, mais 1 ano ou 1 mês, não importa! Qnd ela se interessar de fato e eu perceber que chegou o momento, aí sim.. será apresentada a um mundo mais açucarado! Lembrando sempre que a recomendação eh açúcar somente após os 2 anos de idade! * Aqui tem biscoito de polvilho, sanduichinho integral com queijo branco, bolinho de banana, uva, uva passa e damasco! Ela tem paixão por esses quitutes! ❤️🍽 #MenuDaNina

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Quando a criança inicia seu ciclo escolar, ela começa a entender também que existe um mundo fora do círculo familiar e entra em contato com diferentes modelos de criação de filhos. “É muito comum que a criança use essas observações que faz para conseguir o que quer: ‘Ah, mas a mãe do Pedro deixa ele comer doce antes do almoço!’”, diz Juliana Ferrari, referindo-se às comparações que os pequenos fazem entre si e seus colegas.

Em casos como esse, quanto mais segurança a criança tem de que o adulto responsável por ela está tomando decisões para o seu bem, menos ela se preocupa em fazer do jeito dela. Além disso, é preciso manter o espaço para o debate garantido. “Talvez seja o caso de tornar a experiência ‘comer doce antes do almoço’ um projeto para a criança”, sugere a psicóloga.

Ela ressalta que, após essa experiência, a criança deve ser questionada com perguntas como “O que você sentiu quando comeu o doce?”, “Por que você acha que não conseguiu almoçar direito?”. Além disso, o adulto deve deixar claro que a regra da casa será mantida pelo bem da criança.

 

Laços e isolamento

Um hábito ou estilo de vida interferem na escolha dos círculos de amizade. De um lado eles criam grupos de interesse, como veganos, churrasqueiros, ou chocólatras, que nos ajudam construção da nossa rede de contatos. De outro, isso pode reverberar negativamente, criando uma espécie de isolamento em alguns casos, como é o das crianças que possuem alergia.

“As alergias e limitações alimentares sempre foram uma dificuldade para a convivência das crianças em ambientes sem muito controle”, relata Ferrari. Segundo ela, entretanto, nos últimos anos, esse problema foi trazido à luz das discussões, que mostraram a importância de os adultos terem o controle da situação, sem interferirem na relação das crianças. Para evitar um possível isolamento, em aniversários e festas, por exemplo, os pais podem se informar do cardápio e lavar algo parecido, quando for servido algum alimento que a criança não pode consumir.

“Tudo depende muito dos acordos possíveis. Crianças que têm restrições alimentares ganham muito quando são os anfitriões, pois são situações em que a regra inverte”, indica a psicóloga. Sua sugestão é que, sempre que possível, os pais gerem espaços e momentos para que as crianças ocupem esse lugar.

A chave para que o isolamento não aconteça é manter a abertura aos hábitos de outras pessoas e às formas como elas foram criando esses padrões de relacionamento com a alimentação. É preciso entender também que os hábitos alimentares estão intimamente ligados às experiências afetivas que compunham o cenário em que se estabeleceram.

Se, por exemplo, uma criança cresce se alimentando ambientes de muita ansiedade, com brigas e discussões, ela tende a associar a alimentação a momentos de ansiedade e, na vida adulta, essa aderência é difícil de ser revertida. Se, pelo contrário, os momentos de alimentação são momentos de relaxamento, de prazer, de trocas de experiências, esse se torna um outro padrão que tende a permanecer.

Quem também falou sobre e tirou dúvidas sobre esses assuntos com a SerVida foi a Luciana Costa, do perfil @nutri4kidslancheiras. Ela também deixou mostrou uma receita saudável e prática para ajudar os pais na introdução alimentar. Confira no vídeo abaixo:

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